O título da exposição digital do criador do Movimento Artetetura e Humanismo, Fred Le Blue, “ELEIÇÃO NON PENSE: é isso que eles querem”, funciona como diagnóstico e provocação direta ao eleitorado brasileiro. A expressão sugere que estamos perdendo nossa capacidade de reflexão e autonomia: já não pensamos a política por conta própria, mas somos conduzidos por um sistema de legislações, estratégias de marketing, algoritmos e espetacularizações que moldam nossas percepções e reações emocionais. Diante disso, uma pergunta atravessa a mostra: quem se beneficia das guerras culturais e da polarização política?
Para compreender a dimensão desse problema, a teoria da ação comunicativa de Jürgen Habermas oferece um importante contraponto. O filósofo alemão propõe uma democracia sustentada pelo diálogo racional, pela busca do entendimento mútuo e pelo reconhecimento dos interlocutores como sujeitos legítimos. Nesse horizonte, a força do melhor argumento deveria prevalecer sobre a manipulação, a intimidação e os interesses particulares.
A realidade contemporânea, entretanto, revela um distanciamento desse ideal. O debate público brasileiro é atravessado pela digitalização da política e pela atuação de exércitos virtuais ligados a diferentes campos ideológicos, entre eles bolsonaristas e lulistas. Nas redes sociais, disputas políticas frequentemente se transformam em operações de mobilização emocional, reforço de crenças, disseminação de desinformação e blindagem de grupos. Os vieses de confirmação e os mecanismos de dissonância cognitiva contribuem para tornar o diálogo cada vez mais difícil.
É nesse cenário que a exposição ganha um significado especial: as obras apresentadas são charges produzidas com Inteligência Artificial. Há um paradoxo interessante nessa escolha. A mostra utiliza uma tecnologia frequentemente associada à aceleração da comunicação, à influência algorítmica e à circulação de conteúdos polarizadores para propor justamente o contrário: uma pausa reflexiva diante do espetáculo político.
Por meio do humor, da ironia e do exagero visual, Fred Le Blue utiliza a linguagem das charges para questionar os extremismos e expor contradições presentes em diferentes campos políticos. A inteligência artificial deixa de ser apenas instrumento de reprodução de conteúdos e passa a funcionar como tecnologia sociocultural a serviço da reflexão, da crítica e da cultura de paz.
Essa perspectiva também dialoga com os princípios da *Comunicação Não Violenta*, desenvolvidos por Marshall Rosenberg. Mais do que evitar palavras agressivas, a CNV propõe uma mudança na maneira de nos relacionarmos: substituir julgamentos precipitados pela observação dos fatos, reconhecer sentimentos e necessidades e construir formas de comunicação baseadas na empatia e no respeito às diferenças.
Aplicada à esfera pública, essa abordagem não significa abandonar o confronto de ideias, relativizar responsabilidades ou deixar de criticar posições políticas. Significa compreender que a divergência é constitutiva da democracia e que o adversário não precisa ser transformado em inimigo. A cultura de paz, nesse sentido, não representa passividade diante dos conflitos, mas a capacidade de enfrentá-los sem recorrer à desumanização, à violência simbólica e à anulação do outro.
A exposição parece apontar justamente para essa possibilidade: utilizar a inteligência artificial não para multiplicar hostilidades, mas para estimular o distanciamento crítico, o humor e a consciência sobre os mecanismos que capturam nossa atenção e condicionam nossas escolhas.
Afinal, uma democracia verdadeiramente participativa não pode se limitar à disputa de narrativas, à mobilização de seguidores ou à reprodução de discursos prontos. Precisa recuperar a capacidade de escuta, argumentação e construção coletiva. A internet pode deixar de ser território de feudos ideológicos e contribuir para uma esfera pública mais racional, dialógica e propositiva.
Talvez a principal provocação de Fred Le Blue esteja justamente aí: se a tecnologia pode ser utilizada para nos fazer pensar cada vez menos, também pode servir para nos devolver a capacidade de pensar. Afinal, uma cultura de paz começa quando reconhecemos que a democracia não exige que todos pensem da mesma maneira, mas que todos possam pensar, falar, ouvir e participar sem transformar a diferença em violência.
Exposição virtual: Charges Políticas de I.A. — “ELEIÇÃO NON PENSE: é isso que eles querem”
Artista: Fred Le Blue
Instagram: @arteteturaehumanismo





