Por
José Claudinei Messias, Presidente do Sindicato dos Trabalhadores das Empresas
Ferroviárias da Zona Sorocabana
O
setor ferroviário vive um momento de transformação. Enquanto novos investimentos
impulsionam a expansão da malha e a implantação de projetos em algumas regiões
do país, áreas historicamente ligadas à ferrovia enfrentam redução de
operações, perda de empregos e deterioração da infraestrutura. Em meio a esse
cenário, uma questão se torna central: quem conduzirá o futuro das ferrovias
brasileiras?
Os
investimentos realizados nos últimos anos demonstram que o setor voltou a
ocupar espaço relevante na agenda nacional de infraestrutura. Entre 2023 e
2025, os aportes públicos somaram R$4,7 bilhões, crescimento de 161% em relação
ao triênio anterior, contribuindo para a geração de cerca de 20 mil postos de
trabalho em obras e operações ligadas à expansão ferroviária. Os números
mostram que o setor vive um novo ciclo de crescimento, com oportunidades
concretas de desenvolvimento e geração de empregos.
Porém,
enquanto o Centro-Oeste e parte do Norte do país recebem pesados investimentos,
ampliam suas malhas e atraem novos empreendimentos logísticos, o Sul e o
Sudeste ferroviário tradicional convivem com um cenário preocupante de
abandono. Em diversas linhas históricas, a falta de investimentos, a redução da
circulação de cargas e o sucateamento da infraestrutura têm provocado a perda
de postos de trabalho e a desativação de trechos, enfraquecendo cidades que
nasceram e se desenvolveram em torno da ferrovia.
Mesmo
com essas diferenças regionais, é inegável que a ferrovia segue ampliando sua
importância na logística nacional. Projetos como o trem que ligará Campinas a
São Paulo, novos modais com foco no agronegócio e a expansão das linhas urbanas
mostram o potencial do setor para o transporte de cargas e passageiros, além da
sua relevância para o crescimento econômico sustentável do país.
Quando
falamos em futuro, é preciso lembrar que as ferrovias não dependem apenas de
investimentos, obras e expansões. O desenvolvimento do setor passa
fundamentalmente pelas pessoas que irão operar, manter e se dedicar a toda essa
infraestrutura nas próximas décadas. Num ambiente de transformações tecnológicas
e desafios estruturais, a renovação da mão de obra é um fator primordial.
Para
preparar uma nova geração de ferroviários, temos que garantir condições para
que esses trabalhadores encontrem um setor fortalecido, com perspectivas de
desenvolvimento e valorização profissional. A redução do desemprego entre
jovens nos últimos anos amplia o universo de profissionais que podem enxergar
na carreira ferroviária uma oportunidade de qualificação e estabilidade.
No
dia a dia do Sindicato, vemos que milhares de trabalhadores ainda convivem com
a insegurança provocada pela redução das operações e pela ausência de políticas
que garantam a modernização e a preservação da malha existente. Assim, para
garantir o futuro do setor não é preciso somente ampliar os modais, mas
principalmente recuperar ferrovias já implantadas e valorizar seus
trabalhadores.
As
projeções do Plano Nacional de Logística indicam que o modal ferroviário poderá
alcançar até 31% da matriz logística brasileira em 2050. A concretização desse
potencial dependerá da capacidade do país conciliar crescimento, preservação da
infraestrutura e fortalecimento dos trabalhadores. Nesse cenário em
transformação, a formação de novos ferroviários é um elemento estratégico que
definirá o futuro das ferrovias brasileiras.




